Criança
não nasce estressada, ou agitada, ou malcriada, ela aprende tudo
isso, com seus tutores, sejam eles pais biológicos ou secundários,
que são seus primeiros e mais importantes educadores, seus primeiros
instrutores.
Imagine
que, na fase mais importante de suas vidas, que são seus primeiros
anos de condicionamento mental, quando tomam conhecimento das principais
fraquezas ou virtudes dos outros, quando através da identificação,
da imitação, irão ou não adotar para si
tais comportamentos, na maioria das vezes, as deixamos aos cuidados
de qualquer um.
E
estes primeiros instrutores, que até podem ser seus pais, ou
computadores, ou televisores, colocarão dentro da mente de cada
uma dessas crianças, suas manias, fraquezas, suas preferências,
conflitos, e talvez, virtudes. E tudo isso servirá de base, lastro
para a construção de suas personalidades, seu modo peculiar
de ver e viver o mundo.
Seus desejos, a raiz da maioria das frustrações humanas,
também serão plantados nesse período. Ao se identificar
com um personagem, que pode ser uma babá, um ídolo da
moda, um educador, e tantos outros, a criança também se
identifica com tudo que esteja relacionado com aquela pessoa. Isso inclui
suas opiniões, seus gostos pessoais, suas crenças, seus
ideais e assim por diante.
Se
como adultos, já experientes, ainda julgamos os indivíduos
pelas aparências, qual a reação que devemos esperar
de crianças inocentes? A lógica é simples, elas
se identificam com alguma coisa, porque nessa coisa, que podem ser objetos
ou pessoas, buscam segurança psicológica, a sensação
de que estão protegidas.
Uma
criança nasce livre. Livre de crenças, de obrigações,
sejam tarefas simples ou complexas. Não há vontade em
suas pequenas mentes, estas, as suas vontades, nós lhes ensinaremos.
Nos as ensinaremos a falar, a desejar, a preferir, a ficarem frustradas
quando não conseguem obter aquilo que dizemos ser coisas importantes
para elas. A importância das coisas, assim como suas reações
diante de fracassos e sucessos, isso também lhes ensinamos.
O
mundo não ensina a ninguém. O mundo não tem língua,
nem é capaz de falar, muito menos de cuidar de uma criança.
Isso é nosso papel, dos adultos, sejam pais, educadores ou qualquer
outro. Como adultos, ensinamos a estas crianças como funciona
nosso mundo, que logo será o mundo delas, que no futuro o será
dos filhos destas, num ciclo infinito, aparentemente incapaz de ser
contido, ou modificado.
Uma
criança não nasce com raiva de alguma coisa, ou de alguém.
Se como animal ela possui instintivamente, em si, a semente da violência,
o modo como irá empregar essa violência em seus relacionamentos,
este, fica por conta dos instrutores do mundo, ou seja, nós.
Violência faz parte do instinto animal, serve como alicerce para
a autopreservação. Faz parte do nosso medo primário,
que é prudência diante dos perigos conhecidos.
Diante
de um abismo, sabemos das conseqüências de uma queda, isso
não é medo, é prudência, é inteligência.
Ao cairmos desse mesmo abismo, segurar em suas bordas com todas as nossas
forças, isso é colocar para fora todo nosso instinto animal
de sobrevivência, e estaremos dispostos a tudo para lograrmos
êxito. Aqui não se pensa, apenas se age, mesmo que nossos
dedos sangrem, e mesmo a dor é ignorada. Isso é violência,
é o despertar da força de sobrevivência interior,
ou como diziam os antigos, o despertar do instinto primário.
A
raiva é coisa dirigida, consciente, sabemos exatamente porque
estamos com ela. É uma deformação do estado de
violência primária, uma má aplicação
causada pela falta de compreensão que temos desse estado natural.
Ficamosinsatisfeitos com qualquer coisa, e naturalmente, logo desejamos
nos livrar da causa ou causador. Assim nos foi ensinado, assim, de forma
incondicional, também instruiremos aos nossos descendentes.
Ensinar
as crianças que o perder faz parte do seu aprendizado diante
da vida, que na verdade não se perde, só o podemos fazê-lo,
se nós mesmos já compreendemos bem essa coisa. Como podemos
ganhar alguma coisa se ainda não sabemos o que é perder?
Imagine um mundo onde todos ganham; como saberão que são
vencedores se não houvessem os perdedores, aqueles que precisam
perder ao menos uma vez, para então aprenderem o que significa
uma vitória?
Podemos
ensinar isso às nossas crianças, o fato de que nada se
perde, que o erro é imprescindível ao aprendizado. Como
podemos ensinar o que é acerto se não tivermos um erro
como referência? Decerto não podemos. Isso precisa ser
compreendido, e explicado de uma forma clara, de modo que possam entender.
Assim não mais temerão os erros, e cuidarão, naturalmente
para que nunca se repitam. Usarão os mesmos como guias para seus
acertos, sem frustrações, sem ressentimentos, sem raiva,
sem ansiedades desnecessárias.
Jon Talber